.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
A TERRA DE HELENA
.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
MORDAÇA
“Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto ".Meu pai costuma dizer que quando nasci observava tudo ao meu redor e que acordei todos os bebês da maternidade com o meu choro.
Creio que já tenha nascido desesperada perante os absurdos do mundo.
Trinta anos depois continuo a observar as coisas que me rodeiam com muita atenção.
Agora, com um diáfano prazer por pessoas em lugares públicos. Dou preferência àquelas vestidas de dignidade e verdade.
Fico alí... Observando... Percebendo... Constatando; prescrevendo cada gesto... Aceno... Sinal... Cada passo dado por sobre ovos. Fico a espera do grande momento. Aquele... Quando a máscara enfim, cai.
Não ei de culpar os outros pelo acontecido, uma vez que, as delatoras foram suas próprias vestes.
Estas se apresentam como faróis a aportar verdades à além mar, sob o véu obscuro da sinceridade; como se verdade houvera-se tornado algo absoluto.
Alguém já dizia que se deve duvidar das representações humanas do mundo. O “talzinho” anunciava que, para se conhecer a verdade o melhor a fazer é duvidar dela.
Isso explica essa tendência a me aproximar de pessoas que não se levam a sério, que duvidam de si próprias.
Amo o escárnio que fazem com seus super egos.
Imagens e verdades se distorcem.
Alguém arrisca dizer o que é real?
Se o melhor a fazer é duvidar, não há o que se condenar!
Não há de se perder tempo e esforço a condenar vaidades, dores e amores de outrem.
Não serei eu a jogar a primeira pedra... Tenho as mãos sujas demais.
“Tamanho acúmulo de mentiras não poderia deixar de gerar a mais completa confusão. E o resultado era uma angústia do tamanho do mundo. Gohar agora sabia que aquela angústia ainda não era metafísica. Sabia que não era uma fatalidade inerente à condição humana, mas sim provocada por uma vontade deliberada, a vontade de determinadas forças que sempre tinham combatido a clareza e a razão pura e simples. Essas forças consideravam as idéias suas mais mortais inimigas. Só podiam prosperar dentro do obscurantismo e do caos! Por isso se empenhavam por todos os meios para apresentar os fatos sob as aparências mais contraditórias, e mais propícias a tornar plausível a noção de um universo obsoluto.
O universo não era absoluto, era apenas regido pelos mais abomináveis bando de salafrários que já maculara o solo do planeta. O fato é que o mundo era de uma simplicidade cruel, mas os grandes pensadores a quem coubera a tarefa de explicá-lo aos profanos não podiam se conformar em aceita-lo com tal, por medo de serem taxados de espíritos primários”.
De resto, vou observando o meu entorno e me tornando insecto.
ANA PAULA RIOS
Com fragmentos de "Metamorfose", de Kafka e "Mendigos e Altivos" de Albert Cossery.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
ANTÍDOTO
Naquele momento sentiu que perderia o controle de si. Emocionada, as lágrimas escorriam pelo seu rosto; o calor era enorme... Tentava se manter no salto, mas as pernas tremiam. Sentia que algo estava prestes a acontecer. Lembrou que esquecera de tomar suas pílulas de felicidade diárias e tentou se acalmar através da respiração. Nada funcionava. Aquela vontade de gritar e sair correndo era quase incontrolável. Suava frio, sentia tontura... O mundo girava. De repente olhou ao redor e começou a ficar em pânico em meio a toda aquela gente. Então em meio ao surto recém iniciado, pensou na vergonha que seria expor sua recém descoberta loucura em público. A simples hipótese dessa cena tão vergonhosa lhe trouxe uma sensação tão arrebatadora que a fez retomar o controle de si. Preferiu deixar a crise para mais tarde, sozinha em seu quarto escuro. A vergonha a impediu de seguir adiante.ANA PAULA RIOS
.
MENDIGOS E ALTIVOS
“(…) - Estou a pensar no aleijado. Que presunção! A quem lhe der ouvidos até há-de parecer que as mulheres andam mesmo atrás dele.- Não te esqueças, senhor oficial, de que aquele mendigo, por causa das mutilações, representa uma mina de ouro. As mulheres que o cortejam são interesseiras.
- Seja como for! Uma criatura tão hedionda!
- Não há nada que seja hediondo. Este homem-tronco faz amor tão bem como qualquer outro. E até melhor, se bem entendo e a julgar pelo que me foi dado ouvir. Digo-te eu que os gritinhos de volúpia da mulher não eram fingimento. E confesso ser tal coisa bastante animadora.
- A que chamas tu animadora?
- Olha - disse Gohar -, reconforta saber que até um aleijado como aquele pode dar prazer.
- Semelhante monstro?!
- Este monstro tem sobre nós uma vantagem, senhor oficial. Sabe o que é a paz. Não tem nada a perder. Pensa-me só nisto: não há nada que alguém lhe possa tirar.
- Pois tu julgas então que é preciso chegar a esse ponto para uma pessoa ter paz?- Não sei - respondeu Gohar.
- Talvez seja necessário um homem tornar-se homem-tronco para atingir a paz, para a conhecer. Imagina só a impotência do Governo perante um homem-tronco. Que poderá o Governo contra ele?
- Pode enforcá-lo - disse Nur El Dine.
- Enforcar um homem-tronco! Não, de maneira nenhuma. Não há governo nenhum com humor para isso. Seria belo demais. (…)”
Albert Cossery, Mendigos e Altivos
.
FUNERAIS DE MIM
Lendo Elisa Lucinda falar sobre o morrer para nascer denovo em 'No elevador do filho de Deus', me questionei: Quantos funerais de mim mesma ainda terei de organizar?.
Funerais de sí são como ciclos mestruais atrasados. Te fazem suar frio... Tremer nas bases... Alterar planos mentalmente... Comprar teste de farmácia para depois ver o sangue escorrer na hora de colher a urina.É como acordar tarde, esticar primorosamente o lençol sobre a cama para cair sobre a mesma após o almoço.
.
É preciso muito mais que morrer para renascer. É preciso parir!
.
Durante nove meses ficar sentindo as mudanças... As alterações no corpo, na cabeça, a sensibilidade a flor da pele, a reformulação de planos sentida a cada chute no ventre, o medo, o pânico, o enjôo a tudo que sempre foi excesso; para depois de nove meses parir! Sair do casulo dando a luz a um novo ser.
.
Todas se sentem mais mulheres após dar a luz. Ficam mais bonitas... Mais vistosas... Mais iluminadas... Mais donas de sí. Finalmente aprendem o que é amor incondicional por alguém.
.
A partir daí tudo fica mais simples... Mais fácil... Mais leve. As medidas ganham seus reais pesos e valores. Nada a mais nem a menos.
.
Não ouse discutir, uma vez que o sexo dito frágil adquiriu pelo menos dez quilos no decorrer da gravidez. Peso esse que fez seus pés incharem, trouxe dores nas pernas e nas costas.
.
Parir é renascer sem a necessidade de ensaiar falsos funerais de si. É estado de graça!
ANA PAULA RIOS
.
DEDO PODRE
Sempre sofri a 'Síndrome do Dedo Podre'
Em uma multidão, se apontasse para algum homem com interesse, era justamente esse que não prestava.
Hoje olhando atenciosamente para minha mão, percebi que meu dedo indicador sofre um leve desvio para a esquerda!
Conclusão Fabulosa: Não tenho 'Dedo Podre'.
Tenho 'Dedo Estrábico'
Estou Curada!
ANA PAULA RIOS
.ANA PAULA RIOS
A VISITA
Em um dia desses de inverno recebeu uma visita inesperada. Era alguém que não via há muito tempo. Ao abrir a porta, esta foi logo se instalando sem pedir licença. Muito educado não encontrou meios ou palavras para deixar clara sua insatisfação.A partir daquele dia, sua suposta paz foi abalada. A visita não ia embora, ao contrário, a cada dia se sentia mais à vontade, tão dona da casa quanto ele próprio. Mudava os móveis de lugar, mexia em suas velhas roupas rasgadas misturadas às novas no armário mofado. Insistia em bater os tapetes, espalhando toda aquela poeira cuidadosamente guardada há anos. Era tanto tempo que ele imaginava haver exorcizado aqueles malditos demônios, ácaros pérfidos que agora pairavam no ar lhe causando a mais desesperadora alergia.
Os malditos deveriam ter morrido depois de séculos de constantes pisoteios, mas não, estavam ali os infelizes, lhe torturando os sentidos, pondo em cheque sua segurança, sua crença, sua fé.
Em pouco mais de duas semanas já estava tão debilitado que mal saía da cama. De lá, tinha a visão da rua onde via e não compreendia para onde iam todas aquelas pessoas com semblantes tensos e passos largos. Não conseguia assimilar quais sentimentos as moviam naquela sangria desenfreada. Pastas na mão, óculos escuros, passo acelerado, personagem montado. Para onde iam com tanta pressa? Perguntava.
Estavam a fugir de si mesmas ou haviam elas recebido visitas inesperadas?
E assim os dias se passaram. A visita ali instalada e ele a vegetar, consumido pelos ácaros pérfidos que haviam levado toda sua fé. Estava completamente entregue à devastação causada pelos demônios libertos. Vez ou outra a visita ia até seu quarto certificar-se que seu suplício permanecia.
Um mês de sofrimento!
Um mês maldito!
Um dia despertou com a boca a salivar. Uma saliva que remetia ao desejo, ao prazer, ao gozo. Teria então recuperado o tesão pela vida? Questionou.
Sem se preocupar com o movimento caótico do outro lado da janela, levantou-se prontamente movido pelo desejo incontrolável e saíra finalmente do quarto imundo e infectado à procura da visita. Precisava expelir sua saliva, doar o gozo contido há tanto tempo.
Ao abrir a porta, deparou-se com a mesma a sua espera jogada sobre o tapete nua, a pulsar de desejo. Um desejo que tomava o ar com seu perfume peculiar. Sem mais delongas tomou-a de vez como animal no cio. Por todos os cantos do pequeno apartamento deu-se a ouvir urros e gemidos de volúpia que escandalizaram os vizinhos, quando enfim calaram-se. Ao despertar no outro dia, ainda envolvido em desejo, procurou-a ao seu lado e ela não estava mais ali.
A Melancolia, visita inesperada; havia ido embora sem ao menos se despedir.
Recuperando a altivez, suspirou aliviado e deu-se prontamente a limpar o quarto imundo e a empurrar toda a sujeira cuidadosamente para debaixo do tapete.
ANA PAULA RIOS
.
Assinar:
Comentários (Atom)

