
“Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto ".
Meu pai costuma dizer que quando nasci observava tudo ao meu redor e que acordei todos os bebês da maternidade com o meu choro.
Creio que já tenha nascido desesperada perante os absurdos do mundo.
Trinta anos depois continuo a observar as coisas que me rodeiam com muita atenção.
Agora, com um diáfano prazer por pessoas em lugares públicos. Dou preferência àquelas vestidas de dignidade e verdade.
Fico alí... Observando... Percebendo... Constatando; prescrevendo cada gesto... Aceno... Sinal... Cada passo dado por sobre ovos. Fico a espera do grande momento. Aquele... Quando a máscara enfim, cai.
Não ei de culpar os outros pelo acontecido, uma vez que, as delatoras foram suas próprias vestes.
Estas se apresentam como faróis a aportar verdades à além mar, sob o véu obscuro da sinceridade; como se verdade houvera-se tornado algo absoluto.
Alguém já dizia que se deve duvidar das representações humanas do mundo. O “talzinho” anunciava que, para se conhecer a verdade o melhor a fazer é duvidar dela.
Isso explica essa tendência a me aproximar de pessoas que não se levam a sério, que duvidam de si próprias.
Amo o escárnio que fazem com seus super egos.
Imagens e verdades se distorcem.
Alguém arrisca dizer o que é real?
Se o melhor a fazer é duvidar, não há o que se condenar!
Não há de se perder tempo e esforço a condenar vaidades, dores e amores de outrem.
Não serei eu a jogar a primeira pedra... Tenho as mãos sujas demais.
“Tamanho acúmulo de mentiras não poderia deixar de gerar a mais completa confusão. E o resultado era uma angústia do tamanho do mundo. Gohar agora sabia que aquela angústia ainda não era metafísica. Sabia que não era uma fatalidade inerente à condição humana, mas sim provocada por uma vontade deliberada, a vontade de determinadas forças que sempre tinham combatido a clareza e a razão pura e simples. Essas forças consideravam as idéias suas mais mortais inimigas. Só podiam prosperar dentro do obscurantismo e do caos! Por isso se empenhavam por todos os meios para apresentar os fatos sob as aparências mais contraditórias, e mais propícias a tornar plausível a noção de um universo obsoluto.
O universo não era absoluto, era apenas regido pelos mais abomináveis bando de salafrários que já maculara o solo do planeta. O fato é que o mundo era de uma simplicidade cruel, mas os grandes pensadores a quem coubera a tarefa de explicá-lo aos profanos não podiam se conformar em aceita-lo com tal, por medo de serem taxados de espíritos primários”.
De resto, vou observando o meu entorno e me tornando insecto.
ANA PAULA RIOS
Com fragmentos de "Metamorfose", de Kafka e "Mendigos e Altivos" de Albert Cossery.