Em um dia desses de inverno recebeu uma visita inesperada. Era alguém que não via há muito tempo. Ao abrir a porta, esta foi logo se instalando sem pedir licença. Muito educado não encontrou meios ou palavras para deixar clara sua insatisfação.A partir daquele dia, sua suposta paz foi abalada. A visita não ia embora, ao contrário, a cada dia se sentia mais à vontade, tão dona da casa quanto ele próprio. Mudava os móveis de lugar, mexia em suas velhas roupas rasgadas misturadas às novas no armário mofado. Insistia em bater os tapetes, espalhando toda aquela poeira cuidadosamente guardada há anos. Era tanto tempo que ele imaginava haver exorcizado aqueles malditos demônios, ácaros pérfidos que agora pairavam no ar lhe causando a mais desesperadora alergia.
Os malditos deveriam ter morrido depois de séculos de constantes pisoteios, mas não, estavam ali os infelizes, lhe torturando os sentidos, pondo em cheque sua segurança, sua crença, sua fé.
Em pouco mais de duas semanas já estava tão debilitado que mal saía da cama. De lá, tinha a visão da rua onde via e não compreendia para onde iam todas aquelas pessoas com semblantes tensos e passos largos. Não conseguia assimilar quais sentimentos as moviam naquela sangria desenfreada. Pastas na mão, óculos escuros, passo acelerado, personagem montado. Para onde iam com tanta pressa? Perguntava.
Estavam a fugir de si mesmas ou haviam elas recebido visitas inesperadas?
E assim os dias se passaram. A visita ali instalada e ele a vegetar, consumido pelos ácaros pérfidos que haviam levado toda sua fé. Estava completamente entregue à devastação causada pelos demônios libertos. Vez ou outra a visita ia até seu quarto certificar-se que seu suplício permanecia.
Um mês de sofrimento!
Um mês maldito!
Um dia despertou com a boca a salivar. Uma saliva que remetia ao desejo, ao prazer, ao gozo. Teria então recuperado o tesão pela vida? Questionou.
Sem se preocupar com o movimento caótico do outro lado da janela, levantou-se prontamente movido pelo desejo incontrolável e saíra finalmente do quarto imundo e infectado à procura da visita. Precisava expelir sua saliva, doar o gozo contido há tanto tempo.
Ao abrir a porta, deparou-se com a mesma a sua espera jogada sobre o tapete nua, a pulsar de desejo. Um desejo que tomava o ar com seu perfume peculiar. Sem mais delongas tomou-a de vez como animal no cio. Por todos os cantos do pequeno apartamento deu-se a ouvir urros e gemidos de volúpia que escandalizaram os vizinhos, quando enfim calaram-se. Ao despertar no outro dia, ainda envolvido em desejo, procurou-a ao seu lado e ela não estava mais ali.
A Melancolia, visita inesperada; havia ido embora sem ao menos se despedir.
Recuperando a altivez, suspirou aliviado e deu-se prontamente a limpar o quarto imundo e a empurrar toda a sujeira cuidadosamente para debaixo do tapete.
ANA PAULA RIOS
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