sexta-feira, 8 de julho de 2011

MORDAÇA

“Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto ".

Meu pai costuma dizer que quando nasci observava tudo ao meu redor e que acordei todos os bebês da maternidade com o meu choro.

Creio que já tenha nascido desesperada perante os absurdos do mundo.

Trinta anos depois continuo a observar as coisas que me rodeiam com muita atenção.
Agora, com um diáfano prazer por pessoas em lugares públicos. Dou preferência àquelas vestidas de dignidade e verdade.

Fico alí... Observando... Percebendo... Constatando; prescrevendo cada gesto... Aceno... Sinal... Cada passo dado por sobre ovos. Fico a espera do grande momento. Aquele... Quando a máscara enfim, cai.

Não ei de culpar os outros pelo acontecido, uma vez que, as delatoras foram suas próprias vestes.

Estas se apresentam como faróis a aportar verdades à além mar, sob o véu obscuro da sinceridade; como se verdade houvera-se tornado algo absoluto.

Alguém já dizia que se deve duvidar das representações humanas do mundo. O “talzinho” anunciava que, para se conhecer a verdade o melhor a fazer é duvidar dela.

Isso explica essa tendência a me aproximar de pessoas que não se levam a sério, que duvidam de si próprias.
Amo o escárnio que fazem com seus super egos.

Imagens e verdades se distorcem.
Alguém arrisca dizer o que é real?

Se o melhor a fazer é duvidar, não há o que se condenar!
Não há de se perder tempo e esforço a condenar vaidades, dores e amores de outrem.
Não serei eu a jogar a primeira pedra... Tenho as mãos sujas demais.

“Tamanho acúmulo de mentiras não poderia deixar de gerar a mais completa confusão. E o resultado era uma angústia do tamanho do mundo. Gohar agora sabia que aquela angústia ainda não era metafísica. Sabia que não era uma fatalidade inerente à condição humana, mas sim provocada por uma vontade deliberada, a vontade de determinadas forças que sempre tinham combatido a clareza e a razão pura e simples. Essas forças consideravam as idéias suas mais mortais inimigas. Só podiam prosperar dentro do obscurantismo e do caos! Por isso se empenhavam por todos os meios para apresentar os fatos sob as aparências mais contraditórias, e mais propícias a tornar plausível a noção de um universo obsoluto.

O universo não era absoluto, era apenas regido pelos mais abomináveis bando de salafrários que já maculara o solo do planeta. O fato é que o mundo era de uma simplicidade cruel, mas os grandes pensadores a quem coubera a tarefa de explicá-lo aos profanos não podiam se conformar em aceita-lo com tal, por medo de serem taxados de espíritos primários”.

De resto, vou observando o meu entorno e me tornando insecto.

ANA PAULA RIOS
Com fragmentos de "Metamorfose", de Kafka e "Mendigos e Altivos" de Albert Cossery.

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